Revista Comunicação #259 – Julho / Setembro 2026

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Rolando Ramacciotti Natal de Sabina – Edição 259

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A Palavra de Emmanuel

NOSSA HOMENAGEM A FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

02 DE ABRIL DE 1910 – 30 DE JUNHO DE 2002

Alma abençoada que viveu em sua longa existência as lições de Jesus.

(O pensamento do mentor espiritual de Chico Xavier a respeito de temas da atualidade: conselhos e ponderações sobre as atribulações de nossos tempos)

A felicidade, que pode realmente não existir na Terra, enquanto a Terra padecer a dolorosa influenciação de um só gemido de sofrimento, pode existir na alma humana, quando a criatura compreender que a felicidade verdadeira é sempre aquela que conseguimos criar para a felicidade do próximo.

 

Não olvides o silêncio para a calúnia, a bondade para com todos, a gentileza incessante, a frase amiga que reconforta, a roupa que se fez inútil para o corpo, susceptível de ser aproveitada pelo irmão mais necessitado, o pão dividido, a prece em comum, a conversação edificante, o gesto espontâneo da solidariedade…

 

Na Terra, comumente afrontada com condenações, sê a presença da paz e o reconforto da bênção.

 

O mundo é um palco imenso de provas e tribulações, funcionando à maneira de escola, em que se nos apresentam vários tipos de educação e aprimoramento, mas, nessa área imensa de lutas, podes perfeitamente criar, nos recessos da alma, a fé e a serenidade, a coragem e a fortaleza, que podem garantir a paz e a segurança dentro de ti.

 

(Dia a Dia com Chico e Emmanuel/GEEM)

Chico Xavier Pede Licença
Francisco Cândido Xavier/Espíritos Diversos
Edição GEEM

Rolando Mário Ramacciotti

Bauru-SP, 17 de novembro de 1913.

São Paulo, 13 de dezembro de 1979.

Nos idos de 30, com pouco mais de vinte anos, residindo na capital paulista, sem convicção religiosa, descrente, teve singular vivência espiritual, que mudou o rumo de sua vida.

Na época, trabalhava no Frigorífico Armour e, certa noite do ano de 1935, já deitado, mas sem conciliar o sono, com a luz do quarto apagada, viu um homem de luminosidade própria entrar pela porta fechada e, entendendo ser um intruso, de inopino pulou sobre ele, sem, contudo, conseguir agarrá-lo, qual se fora um fantasma… 

Rolando, homem alto, forte, destemido, avesso a desaforos, foi-se acalmando ao observar a serenidade do visitante que, a pouco e pouco, estabe-leceu com ele inesquecível diálogo, aconselhando-o a deixar São Paulo e voltar à sua cidade natal, onde intuitivamente receberia novas orientações.

E o fez, retornando a Bauru, não obstante surpreso e sem entender bem a razão daquele longo e profundo colóquio, que mudaria sua vida… 

Em 1937, casa-se com Alda Pacheco Ramacciotti e, no ano seguinte, já em Garça, cidade serrana da Alta Paulista, nasce o primeiro dos seus oito filhos. Lá permaneceu até o início da década de 60, quando se transferiu para São Paulo.  

No limiar dos anos 40, converte-se ao Espiritismo, e o vemos trabalhando incansavelmente na Doutrina, atuando, com outros companheiros, frequentando o Centro Espírita Caminho de Damasco e administrando o Hospital Samaritano, conhecido por Hospital dos Pobres, beneméritas instituições que dirigiu de 1950 até sua volta à capital paulista. 

Em 1950, edificou o Orfanato Nosso Lar, posteriormente nominado Nosso Lar – Instituição Filantrópica de Amparo à Criança, entidade que em 1966 transferiu para São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), atraído pela sua pujança industrial. 

Segundo ele, tal mudança possibilitaria o que realmente aconteceu: o alargamento das opções de estudo das crianças do Nosso Lar e sua temporânea colocação no mercado de trabalho. 

Visava também a buscar a auto-suficiência da Instituição com a comercialização  do Café Nosso Lar, produzido sob sua supervisão e que recebeu calorosa acolhida das empresas do município, servindo também como base para o aprendizado profissional das mais de cinquenta crianças e adolescentes abrigados na entidade. 

Também em São Bernardo do Campo, em 1967, fundou o GEEM – Grupo Espírita Emmanuel, Sociedade Civil Editora, com o propósito específico de divulgar a obra de Chico Xavier. 

A ambas as instituições dedicou tempo integral, com o sacrifício absoluto do lazer e dos mais gratos momentos da convivência com os familiares: esposa, oito filhos, genros, noras e netos – pequena grande comunidade familiar, que amou e serviu com carinho e nobreza. 

Ainda em Garça, construiu casas para viúvas, em terreno de sua proprie-dade, reunindo-as sob o nome de Lar Chico Xavier. 

Renunciando a si mesmo, em dedicação total à causa de Jesus, amparou crianças órfãs, mães viúvas, famílias carentes, presidiários, enfermos, enfim, toda sorte de companheiros que nele encontraram o benfeitor amigo, em quatro décadas de identificação plena com a Doutrina Espírita. 

No campo da divulgação, com o primeiro livro editado pelo GEEM, Mais Luz, lançado em 1970, deu nova roupagem ao livro espírita, modernizando-o, tendo suas capas elaboradas por artistas e publicitários, com o uso de papel de impressão mais adequado e diagramação arejada, enriquecendo-lhe, enfim, o processo de editoração.  

Parece-nos oportuno afirmar que Rolando Ramacciotti foi o divisor de águas na trajetória do livro espírita, tanto na sua editoração quanto nos mecanismos de comercialização.  

Introduziu, assim, o novo livro espírita, em contraposição às até então justificáveis, mas obsoletas apresenta-ções. Basta que se comparem os lançamentos anteriores a 1970 e os livros que surgiram após a edição de Mais Luz.  

Durante os últimos vinte anos de sua existência, imprimiu, sempre com recursos próprios, alguns milhões de mensagens psicografadas por Chico Xavier, veiculadas nos derradeiros treze anos de sua permanência conosco, por meio da Revista Comunicação, adrede fundada.  

Em 1972, incorporou ao GEEM a responsabilidade de divulgar o Espiritismo em Braille, por meio do Grupo Casimiro Cunha.

De Mais Luz a Sinais de Rumo, editou até seu falecimento, ocorrido a 13 de dezembro de 1979, 21 livros de Francisco Cândido Xavier. Em 2026, o acervo chega a 110 livros!

Seu amor e dedicação à divulgação do Espiritismo foram sobejamente reconhecidos por todos quantos puderam sentir, mais de perto, a sua grandeza de alma generosa e boa. 

Administrador austero, de larga visão, incansável empreendedor de raro descortino, sempre voltado ao futuro, deixou com nitidez a marca de sua personalidade robusta, tanto em seus afazeres empresariais como em sua rica atuação doutrinária, consentânea com os lavores e sacrifícios dos primeiros propagadores do Espiritismo em Terras Brasileiras, do último quartel do século XIX às décadas iniciais do século passado. 

O envolvimento sempre crescente com o Nosso Lar e com o GEEM obri-gou-o a reduzir muito suas atividades profissionais a partir dos 50 anos, com sensíveis repercussões em sua expectativa financeira.

Escassearam-lhe acentuadamente os recursos, do mesmo modo que ocorrera a Batuíra no início do século passado e a seu coetâneo José Gonçalves Pereira, fundador da conhecida Casa Transitória. 

Deixou nosso convívio direto aos 66 anos na tarde de 13 de dezembro de 1979, em São Paulo-SP. Pai generoso e esposo amigo, levou consigo, entre tantas conquistas, na certeza do dever cumprido, certamente a sua maior alegria: ser amigo incondicional de Chico Xavier. 

Recebeu do Chico inumeráveis visitas no GEEM e em sua residência, mantendo com o médium, na última vez em que se encontraram, menos de dois dias antes de falecer, longo e comovente diálogo.  

Enquanto viveu, visitou regularmente Chico Xavier a cada dois meses, participando das concorridas reuniões das sextas e dos sábados.

Nunca voltou de Uberaba sem receber mensagem de Batuíra, psicografada pelo Chico. 

Aliás, Batuíra foi seu constante orientador espiritual, acompanhando-o do Mundo Maior, reafirmando, em suas ponderações, sempre o mister da disciplina e do trabalho, virtudes que exornaram o caráter de Rolando ao longo de suas lides na Terra.  

Guardo, no escrínio das minhas mais saudosas lembranças, muitas de suas idas a Uberaba. Saía sempre numa 5ª feira ou nas primeiras horas do dia seguinte, para participar do intenso programa desenvolvido pelo Chico. No domingo retornava fatigado, mas espiri-tualmente renovado. 

Pudera, já não dormia de emoção e expectativa às vésperas da viagem; e, além disso, nas longas filas que se formavam para os contatos com Chico Xavier, era invariavelmente o primeiro, do mesmo modo que era o último à hora das despedidas, madrugada adentro do sábado e do domingo, ao término das reuniões.  

Nunca se esquecia de agendar com o Chico a data da viagem seguinte, cuja articulação com os companheiros já se iniciava antes mesmo do retorno.

Considerava privilegiados os amigos que convidava para as viagens e aceitava, com muita dificuldade, eventual recusa, por mais compreensível que fosse. 

Enquanto permanecia junto ao Chico, postava-se sempre a seu lado, e “ai” de quem intentasse remover aquele gigante de estatura e físico incomuns da invejável posição…

Já no carro, retornando ao lar, após as visitas rotineiras ao Chico, antes do obrigatório cochilo que só se interrompia nas paradas ao longo da estrada, espremido no banco traseiro, sempre dizia:

— “Esta foi a melhor viagem que fizemos. Aprendemos muito com o Chico…”  

Quando surgiu o primeiro mimeógrafo em cores, novidade na época, levou-o ao Chico. Na reunião em que entregou a ele aquele “tesouro”, dissertou sobre suas possibilidades de uso com o mesmo entusiasmo com que certamente descreveria as impressoras multicoloridas computadorizadas dos tempos atuais.

Foi, em verdade, o bandeirante desbravador de caminhos impérvios, que, em tudo o que fazia, colocava entusiasmo e perseverança. 

Ao querido Chico, com quem certamente Rolando convive no Plano Espiritual, dedicou muito de sua vida, assimilando-lhe a excepcional grandeza da obra e nele identificando o discípulo de Jesus, cuja luminosa passagem pela Terra todos tivemos a oportunidade de testemunhar.

A lacuna deixada por sua partida é irreparável, e a ausência de Rolando envolveu a todos os que com ele conviveram numa esteira de inesquecível saudade.

Caio Ramacciotti

(Livro Rolando – Edição GEEM)

De São Paulo a Garça

Nos idos de 1930, com pouco mais de vinte anos, Rolando deixara Bauru, onde nascera, e residia na capital paulista. Morava sozinho e era francamente alheio aos apelos religiosos.

Teve, no entanto, em 1936, singular vivência espiritual. Certa noite, já acomodado ao leito, ainda não conciliara o sono. Com o quarto às escuras, surpreendeu-o a presença de alguém entrando pela porta fechada.

Num átimo, pensou:

– Vou esperar que ele chegue mais perto, para envolvê-lo com o lençol, e aí o cobrirei de socos.

Alto, forte, destemido, sempre avesso a desaforos, não via o momento de agredir o invasor e, quando julgou adequado, de inopino, pulou sobre ele.

Não conseguiu, entretanto, segurá-lo: o suposto ladrão desapareceu qual se fora um fantasma… Intrigado, acionou a ‘pera’ da luz e vasculhou o quarto todo, até debaixo da cama. Nada encontrando, deitou-se, mantendo, precavido, os olhos abertos.

O vulto apareceu novamente. E, olhando-o com mais calma, Rolando observou que suave luminosidade o envolvia.

Pensou com seus botões: Gatuno coberto de luz nunca vi… e foi-se tranquilizando com a serenidade do visitante.

O clima de paz permitiu a ambos estabelecer inesquecível diálogo:

– Rolando, acompanho-o da Vida Espiritual. Tenho um conselho a dar-lhe: volte imediatamente a Bauru, lá está sua família. Não fique em São Paulo, peça amanhã mesmo demissão do emprego…

– Mas como? O senhor entra em meu quarto, não me deixa dormir, diz que é um espírito e me aconselha a deixar São Paulo sem mais nem menos? Quem pensa que é?

Chamando-o pelo apelido, o mentor esclareceu:

– Apenas seu amigo, caro Lando. Meu nome é Juvenal. Aqui em São Paulo, as coisas não lhe correm bem, e você sabe disso.

Não o abandonarei e, em Bauru, lhe darei, pela intuição, novas sugestões sobre o seu futuro.

Mesmo não acreditando em espíritos, meu pai ficou confuso, pois realmente passava por momento difícil em São Paulo, cujos detalhes nunca nos contou.

Resolveu atender de imediato ao apelo do suposto espírito, voltando a Bauru. O inusitado colóquio mudaria radicalmente sua vida…

Já no ano seguinte, em 1937, casa-se com Alda Pacheco e, meses depois, atraído por oferta de promissor emprego, muda-se para Garça, como já mencionei, cidade serrana da Alta Paulista, próxima a Bauru.

Em setembro de 1938, nasce o primeiro dos seus oito filhos, e, no limiar dos anos 40s, converte-se ao Espiritismo.

Sua adesão à doutrina ocorreu de modo curioso. Continuava descrente ao voltar de São Paulo para Bauru, a pedido do espírito que lhe aparecera no quarto, como já dissemos.

Uma noite, ainda em Bauru, sem saber bem por que, certamente intuído pelo benfeitor Juvenal, foi a um centro espírita da cidade e, logo no início das tarefas doutrinárias, pôs-se mentalmente a ridicularizar a explanação dos dirigentes. Insatisfeito, buscou deixar o recinto. Todavia, ao se levantar, sentiu os ombros fortemente pressionados, sendo obrigado a sentar-se novamente.

Procurou erguer-se outra vez, mas, não obstante os esforços, permaneceu ‘grudado’ à cadeira e viu-se premido a ficar até o fim da reunião espírita. Ainda assim, não se sensibilizou com o que ouvira e foi embora.

Evidentemente, estava em andamento sua preparação pela Espiritualidade Maior para os compromissos que viria a assumir pouco mais tarde, em Garça, onde manteve, de início, a monótona rotina de Bauru.

Saía do trabalho, encontrava amigos em um bar e lá permanecia algum tempo, até que, certo dia, vendo-o no bar, um conhecido lenhador da cidade disse-lhe com veemência: – Rolando, seu lugar não é aqui. Procure um centro espírita. Sua vida vai mudar.

         Ele aquiesceu ao pedido do amigo e começou a frequentar as reuniões do Centro Espírita Caminho de Damasco.

A partir daí, modificou-se radicalmente. Além de ir ao centro, passou a visitar enfermos do Hospital Samaritano, detentos na cadeia pública e pessoas de outros locais onde houvesse dor, solidão e pobreza.

Nos primeiros anos de sua vinculação à doutrina, na década de 50, teve em Waldemiro Antão Lobo Nunes o grande orientador. Carioca de berço, radicado na capital paulista, viajava a serviço pelo interior do estado, visitando de modo especial a região de Piracicaba.

Excelente orador, alma generosa e amiga, não perdia a oportunidade de divulgar o Espiritismo por onde passava.  Nasceu Waldemiro Nunes em 1900, e, não guardo dúvidas: ao nos deixar, sua elevada estatura espiritual o conduziu aos páramos celestiais.

Quando vinha a São Paulo, ainda residindo em Garça, nosso pai assistia a palestras suas em um centro no bairro da Lapa, que também, como o de Garça, se chamava Caminho de Damasco.

Rolando deixou-nos o legado de um homem que passou a vida amparando os necessitados, fossem os órfãos do Nosso Lar ou as viúvas da Casa de Chico Xavier que edificara.

Abraço saudoso, querido pai!

Caio Ramacciotti

Notícias

1) Em sua edição de 7 de janeiro de 2026, Espiritismo Net nos traz interessante estudo sobre as Experiências de Quase-Morte. A reportagem aborda a investigação científica sobre as Experiências de Quase- Morte (EQM), conduzida por pesquisadores da USP. O estudo foca em relatos de pessoas que, após passarem por situações de morte clínica ou risco extremo, descrevem vivências como a percepção de sair do próprio corpo, com sensações, por vezes perturbadoras, de transitarem entre a vida e a morte.

2) Um leitor da revista Comunicação, em nossa reunião das segundas-feiras às 20h, no dia 6 de abril de 2026, perguntou-nos se os animais têm consciência. Encontramos a respeito, resposta no livro Voltei, ditado por  Frederico Figner, com o pseudônimo de Irmão Jacob, a Chico Xavier: – sim, os animais têm uma consciência real, ainda que precária.

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II – Departamento Filantrópico Nosso Lar
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